O vulto
O homem olhou para o céu e viu as nuvens negras que rolavam no horizonte. O temporal desabaria sobre a mata dentro de meia hora, considerou.
Havia ainda um espaço de tempo para visitar o túmulo embaixo da velha paineira, pensou enquanto fechava a porta da casa e rumava para lá com passos largos.
A cruz na cabeceira da cova estava um pouco pensa e o vento a derrubaria fácil, então pegou um pau e bateu sobre ela até que ficasse mais firme. Sentou-se ao lado e ficou olhando para a terra e para as flores semi murchas. Como estaria ela, lá embaixo? O único consolo era imaginar que estaria mais tranqüila agora, sem dores, sem lágrimas, sem vontades. Estava melhor que ele, e esse pensamento o acalmou e o consolou, pelo menos por uns poucos momentos.
Tão pouco tempo de separação e já sentia que a saudade era quase insuportável. Como seria dali para frente? Os dias seriam mais longos, as noites, as longas noites de solidão a procurá-la em todas as sombras da casa até se convencer de que nunca mais a veria.
Olhou para a estrada e lá estava o vulto à espreita. Desde que ela falecera ele não faltara um só dia. Ficava ali, perfilado, esperando, aguardando, como um cão espera o sinal do dono.
Como das outras vezes, não lhe dirigiu uma palavra, não lhe fez um gesto, nem sequer o encarou. Apenas percebeu sua presença, não teve ânimo para enxotá-lo, rezou uma breve prece, enxugou uma teimosa lágrima na manga da camisa e voltou para a cabana com os passos mais lentos, como se as pernas o levassem ao encontro do nada. Pois ali dentro não havia mais nada. Só mesmo a sua crescente solidão, os vestidos e os perfumes dela que ele se recusara a enterrar junto ao corpo.
Notou o vento retorcendo os galhos mais leves, ouviu o trovão e observou os pingos grandes caindo sobre o capim. Ao fechar a porta da cabana percebeu que o vulto o havia seguido e estava parado, imóvel, no meio do canteiro de flores que ela havia plantado antes de adoecer.
Caiu o temporal, as rajadas de vento traziam o seu uivo por entre as árvores e as águas batiam forte no telhado, janelas e porta como se quisessem desalojá-lo de seu esconderijo. Por um momento pensou ter ouvido o chamado dela. Mas apenas imaginação. Imaginou também a água batendo sobre a terra, entrando dentro da terra e chegando até onde ela estava. Sacudiu a cabeça, nervosamente para espantar o pensamento terrível. Precisava pensar em outras coisas. Olhou pelo vão da porta e o vulto continuava lá, encharcado, sobre o canteiro de margaridas pequenas, amarelas.
Abriu a porta e caminhando com os olhos semi-cerrados sob a chuva intensa foi até ele, pegou-o no colo e carregou-o para dentro da cabana.
Lá dentro, passou-lhe uma toalha e deixou que se enxugasse o rosto, os cabelos, o pescoço.
Ajudou-o a tirar toda a roupa – os cabelos eram louros e lisos, mas não longos como os dela. Os olhos sim – eram verdes, verdes claros – lágrimas – como os dela no final. Enxugou-lhe o corpo – esguio – branco – mas, diferente do dela, uma fina penugem sedosa a cobrir – lhe as pernas e as nádegas.
Pegou o vestido azul claro que ela usava nas missas para cobrir-lhe o sexo pequeno, quase invisível entre as coxas. E abraçou-o com a força do desespero todo que carregava na alma:
-Querida, querida, não me abandone ainda…
Ele sentiu os lábios do vulto procurando os seus, num beijo desesperado igual ao abraço, na mesma intensidade da dor que sentia em si e no vulto silencioso.
Deitou-se na cama cobriu com seu corpo o vulto inerte, o pênis duríssimo transpassando-lhe o vão das coxas, aninhando-se na entrada do sexo.
Mãos carinhosas percorreram as costas largas e magras de lavrador, suas coxas prendendo sua masculinidade como se fossem as da mulher que não mais existia.
E, enquanto a chuva fustigava o telhado, ele sentiu o gozo, dolorido, esperado. O vulto acariciou-lhe os cabelos, beijou-lhe a face e sorriu.
O homem não se afastou depois. Permaneceu deitado a seu lado, observando-o na semi-escuridão.
Finalmente, soergueu-se, apanhou de sobre a cômoda o vidro de perfume preferido dela e aspergiu -o sobre a cama. E um outro vestido, agora branco, cobriu-o. O homem adormeceu afinal, cansado, abraçado ao vulto. A tempestade já estava amainando.
E o vulto decretou o início da loucura que permeia todas as nossas vidas.


